Há um par de dias voltei de uma segunda viagem de missões para a cidade de Maués, na Diocese de Parintins. Participei como um dos auxiliares da Mission Brazil, que organiza a Missão em parceria com Focus e contando com a acolhida do Bispo D. José Albuquerque de Araújo e do P. Jânio Negreiros, Pástor da Paróquia Nossa Senhora da Assunção, em Maués.
O grupo era mais ou menos grande, mais de vinte missionários. O meu papel principal era ajudar com a tradução do inglês ao português e viceversa, mas, como no ano passado, acabei cumprindo com outras funções relacionadas com o anúncio do Evangelho, a formação e o apostolado direto com pessoas e comunidades.
Como na minha primeira partilha, vou dividir o texto em alguns pontos que considero foram os mais significativos da minha experiência pessoal.
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| Com o Padre Marciney, quem nos recebeu no Seminário de Manaus |
Maria Guia: Um ano depois
No ano passado, quando aceitei participar na Missão a Maués, ainda me encontrava na Itália, preparando o meu regresso ao Brasil. Nesse momento tinha muitas incertezas sobre como seria esse meu retorno e ao mesmo tempo muitas expectativas de reencontrar tantos amigos, que fiz aqui no Brasil em mais de 20 anos de trabalho, missão e vida comunitária apostólica. Como de costume, coloquei nas mãos de Nossa Senhora toda essa experiência e devo dizer que o Senhor aos poucos tem me conduzido e aplainando os caminhos. Hoje já estou integrado novamente à UCP como professor universitário, e à distância a UCSP. Também trabalho em diversas iniciativas de formação, entre elas a dos jovens missionários da Mission Brazil.
Essa segunda viagem tem sido então ocasião para contrastar o meu contexto pessoal atual com o da viagem passada e de dar graças a Deus por tantas bênçãos recebidas no ano que passou.
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| Com o grupo completo de missinoários e com o Padre Jânio |
O "tio das missões" (Uncle Martin)
Já no ano passado o dado da minha idade veio à tona, ao constatar que era o mais velho do grupo. Inclusive mais velho do que os dois sacerdotes que acompanhavam o grupo. Em muitas situações e diálogos, percebia que o meu posicionamento era o do irmão mais velho, e inclusive de uma certa paternidade. Neste ano abracei com mais decisão essa forma de participação na missão. A final de contas, a minha primeira missão foi há quase trinta anos, quando era ainda um estudante de engenharia na Universidad de Lima. No século passado. No milênio passado.
Desde aquela primeira viagem, na serra peruana, até hoje, participei de muitas missões e viagens apostólicas. Também acumulei muitas experiências no serviço de animação de grupos de vida cristã e na formação de missionários. Acho que tudo isso é um tesouro que não posso guardar para mim mesmo, e sim compartilhar com os mais jovens.
Ao mesmo tempo, considero que tenho muito que aprender dos demais. Com gratidão e esperança vejo nas novas gerações aquele mesmo entusiasmo, mas, sobretudo, aquela mesmo desejo de intimidade com Cristo que se encontra na raiz de toda missão. O meu ardor missionário se renova no encontro com os mais jovens. Creio que é também importante dar testemunho de que não importa a idade, sempre é possível participar na missão.
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| Descobri que gosto muito de dormir na rede, sobretudo dentro de uma barca em movimento |
A Fazenda da Esperança
Durante o último mês, e especiamente durante as missões, como guia para a minha oração escolhi um livro do Cardeal Martini, "A Mulher da Reconciliação". Contém belíssimas meditações que ajudam a aprofundar na Escritura, deixando-a iluminar a própria experiência. Temas como a atenção, a escuta, a festa, a ternura, são próprios da escola de Maria, na qual todo missionário está chamado a ingressar. Por mencionar um deles, a capacidade para fazer festa me tocou de maneira particular. Na missão há tantas ocasiões para fazer festa! É importante, no entanto, abrir o coração e não se fechar nas próprias frustrações e cansanços, que também não faltam. Ao falar da festa, o Cardeal Martini diz que um dos lugares nos quais ele experimentou com particular intensidade a festa foi nas suas visitas às prisões. No meu caso, a Fazenda da Esperança, que visitamos novamente nesta missão, em duas ocasiões, foi um momento muito especial de festa. Ter a oportunidade de celebrar a Missa, compartilhar algumas reflexões, o alimento e até brincar com esse grupo de homens que buscam libertar-se da escravidão da droga, tem sempre esse efeito de uma alegria que se impôe sobre qualquer sombra de desânimo e tristeza do meu coração.
Partilhei umas breves palavras com eles, aplicando a parábola da semente ao contexto que eles vivem e depois preparando uma dinâmica de grupos, que foi ocasião para a abertura do coração e o diálogo com os missionários. Esses homem permanecem no meu coração, e lembro deles na minha oração. Rezo pela plena recuperação deles.
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| Durante a palestra que dei na Fazenda da Esperança. |
Waku Sése
Esta expressão, na língua sateré maué, falada por muitas pessoas da área indígena que visitamos, significa "Obrigado". Foi muito emocionante celebrar a Missa nessas comunidades, que não contam com a presença constante de um sacerdote. Lembro com carinho duas comunidades nas quais antes da Missa rezamos também o Terço. Foram visitas muito rápidas, quatro por dia (2 pela manhã e 2 pela tarde), nas quais nos dividíamos em dois grupos. Uns ficavam na barca maior e outros iam em uma lancha. Normalmente visitávamos algumas casas, rezávamos com as famílias, brincávamos com as crianças e os jovens de depois tínhamos a Missa. No final da Missa sempre tinha algumas palavras do líder da comunidade, agradecendo pela nossa visita.
Em uma ocasião, pedi a uma senhora que puxasse os cantos e foi buscar um cancioneiro até sua casa. Quando voltou me disse que tinha escolhido "Alegres vamos à casa do Pai", porque estava muito alegre pela nossa visita.
Em outra comunidade, depois da Missa, nos convidaram a ficar e apresentaram algumas danças, que as meninas tinham preparado com seu catequista. A letra era em sateré maué, mas logo me explicaram que eram todas tiradas da Bíblia.
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| Foto que tiramos em uma das Comunidades, depois da Santa Missa. |
The Holy Hour
Os missionários de Focus têm o hábito de fazer uma hora diária de adoração silenciosa ao Santíssimo Sacramento. Já no ano passado me engajei com esta prática. Gosto de ficar em silêncio, meditando alguma passagem da Escritura, buscando luz na Palavra para a minha experiência e para o trabalho de cada dia. Isto conecta muito com uma ideia que venho amadurecendo, de reconstruir uma e outra vez a minha vida a partir da Eucaristia. Ter essa hora de silêncio e de encontro íntimo com Jesus, em meio á missão, é meu momento preferido destas viagens. Sinto que é ali que recarrego as baterias e reencontro o sentido de todas as demais atividades. A missão é, no fundo, compartilhar com mais pessoas essa presença que preenche a minha vida de sentido e esperança.
Termina assim esta pequena partilha. Agora, de volta em casa, retomo meus trabalhos como professor universitário. Tenho vários cursos que preparar e algumas reuniões de coordenação que atender. Espero poder levar a todo esse empenho o mesmo espírito que anima as missões: viver em uma missão permanente na ordinariedade do cotidiano.





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