Uma das gratas alegrias ao longo da minha experiência apostólica em Petrópolis, foi a de participar vários anos da festa de São Martinho de Tours, organizada por uma amiga alemã no Quitandinha. Essa minha amiga cismou que por eu ter o mesmo nome do grande santo, devia sempre apresentar um teatrinho, para que mais pessoas conhecessem a sua história.
No ano de 2016 resolvi ler a Vida de Martinho, escrita por Sulpício Severo, quando o santo ainda era vivo. De fato, esta obra é uma raridade, por ter sido a primeira escrita de um santo que não foi mártir. Martinho, depois da sua edificante conversão, na qual reconhece Jesus na figura de um mendigo, com o qual divide o manto, se coloca ao serviço da Igreja, primeiro como missionário leigo, depois como exorcista, clérigo, monge e bispo.A segunda leitura do Ofício, no dia da sua festa (11 de novembro) é belíssima. O retrata já ancião, já no leito de morte. Os monges, porém, pedem ao santo que não os deixe, pois ainda precisam tanto dele. Martinho, milagrosamente, recupera a saúde, e serve a Igreja ainda por mais alguns anos.
No ano passado, tive a oportunidade de passar pela cidade de Tours, na França, e visitar as relíquias do santo. Nessa mesma viagem, na cidade de Poitiers, conheci o Batistério no qual foi batizado por Santo Hilário, padre da Igreja.
En fim, posso dizer que graças à minha amiga alemã, ganhei no céu um amigo e um intercessor do qual indignamente levo o mesmo nome. Compartilho com vocês uma simples peça de teatro, que escrevi para ser apresentada em uma das tantas festas de São Martinho, em Petrópolis.
Abraço a todos!
***
TEATRO DE SÃO MARTINHO
Que narra seu desligamento do Exército Romano
De acordo com a Vida de Martinho, escrita por Sulpício Severo
Autor: Martín Ugarteche.
Introdução (Lida por um Narrador)
O teatro narra uma das passagens da vida de Martinho, dois anos depois que Jesus lhe aparecera em sonhos, com a metade do manto que Martinho tinha dividido, em gesto de solidariedade, com um mendigo na entrada da cidade de Amiens.
Na véspera de uma batalha decisiva contra os bárbaros da Gália, diante do Imperador Juliano César, mais conhecido como Juliano o Apóstata, Martinho finalmente manifesta seu desejo de se desligar do exército.
Acusado de covardia por Juliano, Martinho se oferece para ir à linha de frente na batalha, só que desarmado, pois agora se considera um soldado de Cristo, e não mais do Império Romano.
Enquanto Martinho espera, na prisão, o início da batalha contra os bárbaros, o povo e os soldados, testemunhas do que tinha acontecido, cantam...
Cena 1
Povo:
Martinho, Martinho, o que você fez?
Pedir a dispensa do exército hoje,
No dia anterior à iminente batalha.
Covarde, covarde, pensaram alguns,
E outros ainda, assim murmuraram,
Fechados que estavam à graça divina.
Muitos, porém, não ousavam julgar-te,
Sabendo ser teu um caráter sem dobras,
Justiça e coragem tuas fiéis companheiras.
Alguns entre eles, romanos soldados,
Também como tu, acolheram o Cristo,
O Rei que em tua busca, Se fez um Mendigo.
Covarde não é o soldado de Roma,
Que troca Juliano por Cristo, o Cordeiro,
O Reino do Mundo, por um Reino Eterno.
Novas batalhas, mais altas abraças,
Levando ao faminto o pão da Palavra,
Livrando os cativos dos ídolos bárbaros.
Novas missões, hoje acolhes sem medo,
Com preces e bênçãos aos Céus elevadas,
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito.
Cena 2
Martinho está sozinho na prisão, em oração, quando recebe a visita do seu Tribuno e amigo.
Tribuno:
Mas o que você fez, meu caro Martinho?
Afrontar dessa forma Juliano o Apóstata?
Eu disse a você, é só mais um pouco,
E enfim nosso sonho, de sermos cristãos,
Será realizado, conforme esperamos.
Martinho:
Mas era o momento, Tribuno e amigo,
Depois de dois anos adiando este dia,
Meu coração em festa, enfim abre a porta
A quem tanto chamou, como Deus e mendigo.
O prêmio ofertado, aos soldados romanos,
Não podia aceitar, tendo em vista a renúncia,
Que em breve faria, sem dúvida alguma.
Tribuno:
Lamento o desfecho de toda esta história,
E fico surpreso com teu fresco semblante.
Amanhã marcharás, desarmado à batalha,
Sem mais proteção, que a que Deus te ofereça.
Martinho:
Não tenho dúvidas, meu caro tribuno,
Que o Senhor me sustenta a cada momento,
E o fará na batalha, à qual marcho sereno,
Desarmado e sem medo, por Deus protegido.
Martinho e o Tribuno se despedem. Martinho fica de novo sozinho, e permanece em oração.
É interpretado O Senhor é meu pastor (Salmo 22). Martinho também canta, junto com o resto dos atores e, se for possível, também o público.
Martinho dorme, depois da interpretação do Salmo.
Cena 3
Os bárbaros se rendem.
Guarda:
Acorda Martinho, há notícias da frente!
Parece que Deus atendeu tuas preces
Os bárbaros pedem a paz a Juliano,
Cedem à Roma, evitando a matança.
Martinho:
Obrigado meu Deus, porque salvas a vida
De quem se confia à Tuas mãos providentes...
Não só por teu servo, agradeço as notícias,
Mas por tantas vidas, que assim são poupadas!
Guarda:
E não é só a paz o que venho anunciar-te
Mas também a notícia da tua liberdade...
Enfim poderás iniciar o caminho,
Que há tanto sonhavas, contando as jornadas.
Martinho:
Marchava confiado ao Batismo de sangue,
Agora, encantado, ao Batismo das águas,
A entrega é a mesma, da vida ao Amado,
Ao Pai e a Jesus e ao Espírito Santo.
A luz deste dia venceu toda treva,
Nasce um filho da Igreja, outro Cristo na terra.
Chega uma procissão de Cristãos e Martinho é batizado. Todos entoam juntos “Esta é a luz de Cristo”, com velas acessas (lanternas) nas mãos.
FIM.
| Oração a São Martinho de Tours, ao lado do seu Túmulo |
| Túmulo de São Martinho de Tours |
| Igreja de São Martinho de Tours, onde pode ser visitado o seu túmulo |
| Eu, visitando São Martinho |
| Batistério em Poitiers, onde São Martinho foi batizado por Santo Hilário |

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